terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nota de repúdio ao Decreto Presidencial que extingue a RENCA



CEA 0523/17
Brasília, 28 de agosto de 2017

 Nota de repúdio ao Decreto Presidencial que extingue a RENC

Ouvimos o grito da terra e o grito dos pobres
A Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), ligada ao Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe (CELAM), e no Brasil organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), juntamente com a Comissão Episcopal para a Amazônia, da CNBB, por meio de sua Presidência, unida à Igreja Calica da Pan-Amazônia e à sociedade brasileira, em especial aos povos das Terras Indígenas Wpi e Rio Paru D'Este, vem a público repudiar o anúncio antidemoctico do Decreto Presidencial, altamente danoso,   que extingue a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (RENCA) na última quarta-feira (23).

A RENCA é uma área de reserva, na Amazônia, com 46.450 km2 tamanho do território da Dinamarca. A região engloba nove áreas protegidas, sendo três delas de proteção integral: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá; a Reserva Biogica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e Rio Paru d`Este. A abertura da área para a exploração mineral de cobre, ouro, diamante, ferro, nióbio, entre outros, aumentará o desmatamento, a perda irreparável da biodiversidade e os impactos negativos contra os povos de toda a região.

O Decreto de extinção da RENCA vilipendia a democracia brasileira, pois com o objetivo de atrair novos investimentos ao país o Governo brasileiro consultou apenas empresas interessadas em explorar a região. Nenhuma consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais foi realizada, como manda o Artigo 231 da Constituição Federal de 1988 e a Convenção 169, da Organizão Internacional  do  Trabalho  (OIT). O  Governo  cede  aos  grandes  empresários  da mineração  que solicitam anos sua extinção e às pressões da bancada de parlamentares vinculados às companhias extrativas que financiam suas campanhas.

Ao contrário do que afirma o Governo em nota, ao abrir a região para o setor da mineração, não haverá como garantir proteção da floresta, das unidades de conservação e muito menos das terras indígenas que serão diretamente atingidas de forma violenta e irreversível. Basta observar o rastro de destruição que as mineradoras brasileiras e estrangeiras têm deixado na Amazônia nas últimas  décadas:  desmatamento,  poluição,  comprometimento  dos  recursos  hídricos  pelo  alto consumo de água para a mineração e sua contaminação com substâncias químicas, aumento de violência, droga  e prostituição,  acirramento  dos  conflitos  pela terra,  agressão descontrolada  às culturas  e modos  de vida dacomunidades  ingenas  e tradicionais,  com  grandes  isençõede impostos, mas mínimos benecios para as populações da região.

Riscos ambientais e sociais incalculáveis ameaçam o pulmão do Planeta repleto de biodiversidade” que é a Amazônia, como nos lembra Papa Francisco na carta encíclica Laudato Si, alertando que propostas de internacionalização da Amazônia que servem aos interesses econômicos das corporões internacionais” (LS 38). A política não deve submeter-se à economia e aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia, pois a prioridade deverá ser sempre a vida, a dignidade da pessoa e o cuidado com a Casa Comum, a Mãe Terra. Em Santa Cruz de la Sierra, na
Bolívia, em 9 de julho de 2015, o papa Francisco não hesitou em proclamar: digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a mãe terra”.

Na LS, o papa Francisco alerta ainda que o drama de uma política focalizada nos resultados
imediatos (...) torna necessário produzir crescimento a curto prazo" (LS 178).

Ao contrário, para ele no debate, devem ter lugar privilegiado os moradores locais, aqueles mesmos que se interrogam sobre o que desejam para si e para os seus filhos e podem ter em consideração as finalidades que transcendem o interesse econômico imediato” (LS 183).

A extinção da Renca representa uma amea política para o Brasil inteiro, impondo mais pressão sobre as terras indígenas e Unidades de Conservação, e abrindo espaço para que outras pautas  sejam  flexibilizadas,  como  autorizão  para  exploração  mineral  em  terras  indígenas, proibida pelo atual Código Mineral.

Por todos esses motivos, nos unimos às Dioceses locais do Ama e de Santarém, aos ambientalistas e à parcela da sociedade que, por meio de manifestações nas redes sociais e de abaixo-assinados, pedem a imediata sustação do Decreto Presidencial que extingue a Reserva.

Convocamos as senhoras e os senhores parlamentares a defenderem a Amazônia, impedindo que mais mineradoras destruam um dos nossos maiores patrimônios naturais.

Não nos resignemos à degradação humana e ambiental! Unamos esforços em favor da vida
dos povos que vivem no bioma amazônico. O futuro das gerões vindouras está em nossas mãos!

Que Deus nos anime no mais fundo de nossos corões e nos ilumine e confirme na busca da tão sonhada Terra Sem Males.


       Dom Claudio Cardeal Hummes
Presidente da REPAM e da Comissão Episcopal para a Amazônia

Dom Erwin Krautler
Presidente da REPAM-Brasil e Secrerio da Comissão Episcopal para a Amazônia


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