sábado, 19 de maio de 2018

Mensagem do papa às finanças: um convite à mudança moral em um ''mundo pós-católico''

“O papa pede, pela primeira vez, mudanças estruturais, inclusive na economia. Existe todo um mundo das finanças católicas que diz: nós podemos ser morais. Porque a economia, por si só, é neutra. João Paulo II falou da estrutura de pecado, enquanto Francisco, dizendo que essa economia mata, faz uma demanda de mudança estrutural.” Essa é a mensagem lançada por Andrea Tornielli, vaticanista do jornal La Stampa e coordenador do site Vatican Insider, apresentando em Roma, na Sociedade Dante Alighieri, o texto publicado pela editora Rizzoli e intitulado Il Cristianesimo al tempo di Papa Francesco [O cristianismo em tempos de Papa Francisco], livro que reúne discursos de inúmeros especialistas da Igreja e editado por Andrea Riccardi.

A reportagem é de Francesco Gnagni Porpora, publicada em Formiche, 16-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Migrações, terceira guerra mundial em pedaços, pobreza: são temas todos interconectados, e não se pode deixar de fazer uma pergunta séria e política sobre as guerras nefastas que passamos a provocar, como no Iraque”, afirmou Tornielli, explicando que o gesto de Bergoglio “não é um ‘não’ pacifista, mas um chamado a olhar para as consequências e ver como olhamos para aqueles países, pensando em exportar a democracia. Esse é o grande ponto de contraste entre o papa e os chamados poderes fortes, como as finanças. Aí se aninha a verdadeira oposição ao papa, porque, para alguns, incomoda muito ouvi-lo falar com insistência de tráfico de armas, guerras, pobreza”.

O jornalista, nas últimas semanas e junto com outros economistas e especialistas como Jeffrey Sachs, Stefano Zamagni, Leonardo Becchetti e Mauro Magatti, apresentou o projeto Quadragesimo Anno, em que são propostos caminhos operacionais para um sistema de certificação de acordo com o ensino social da Igreja. Um plano decididamente inovador que tenta demonstrar, com uma proposta de longo prazo, de fôlego amplo e centrada em ações tangíveis, que as finanças a serviço do ser humano são possíveis. Até porque “a verdadeira mudança de paradigma é a capacidade de levar a sério o testemunho que ele dá”, explicou o próprio Tornielli durante sua fala.

Afirmação que assume ainda mais valor no momento em que se olha para a Igreja como instituição. Isto é, em que se observa que, na realidade, não houve grandes reformas, e em que estamos vivendo um período de decepção, explicou o próprio Tornielli. Mas em que o problema se esconde precisamente na abordagem que se assume em relação à pregação do pontífice. Que, não por acaso, ao levar a sua reforma em frente, antes de uma mudança de estrutura, pede acima de tudo uma conversão moral interior.

“Se, antes de escalar cargos institucionais, era preciso usar expressões-chave, como valores inegociáveis, ou lançar abaixo-assinados contra os preservativos, agora a situação é exatamente a mesma, mas com a diferença de que é preciso usar a palavra ‘pobres’ ou ter feito voluntariado”, afirmou o jornalista.

A opção Bento, a Igreja alemã e o Evangelho de Francisco

“A tendência dos aparatos, de fato, é a metabolizar tudo e colocar dentro do mesmo liquidificador. Assim, o uso desses termos torna-se um estado de espírito, a mensagem se torna um slogan, e se acaba sendo autorreferencial. Não há a tentativa de discutir, acolher, siga a mensagem do papa, mas sim a tentativa de jogar sobre ele uma agenda própria.”
Isto é, uma agenda que mostra que não compreende a visão evangélica de Francisco, a única que o pontífice realmente tem em mente e que leva em frente. E, considerando-se tudo isso, continuou o vaticanista durante o debate, “a opção Bento é inadequada para os tempos em que estamos vivendo, para viver a metrópole. Porque o anúncio do Evangelho passa pela disponibilidade de ouvir, em um mundo onde o modelo é o do talk-show, mas onde falta alguém que escute você, de um Deus que, em vez de lhe julgar, diz-lhe que está bem do modo como você é”.

Quanto ao caso alemão, ou seja, o pedido dos bispos alemães de uma chamada “hospitalidade eucarística”, a possibilidade de conceder a comunhão a um protestante que participa da missa junto com o cônjuge católico, “Francisco disse para se encontrar um resultado unânime, portanto, evidentemente, tendo em mente também as opiniões contrárias. Porque a Igreja tem uma forte necessidade de estar unida. Ao contrário, isso foi logo rotulado como uma cedência, não com razão e não só por parte dos jornalistas hiperclericais, mas também de cardeais”, explicou Tornielli.
Mas a verdade que deve ser levada em conta é que “o papa não será lembrado pelas reformas da Cúria ou por ter criado cardeais de lugares desconhecidos, mas sim por uma capacidade de testemunhar o Evangelho unindo palavras com gestos”.
Sobre as avaliações dos cinco anos de pontificado, já foram feitas muitas e a partir dos mais diferentes ângulos. Uma delas, por exemplo, leva em consideração a relação do próprio Bergoglio com a chamada “religião das emoções”, cada vez mais difundida no tempo em que vivemos.
“É interessante entender como Francisco se coloca em relação a ela”, afirmou o diretor da revista Limes, Lucio Caracciolo. Embora “o ponto não esteja evidentemente apenas aí, porque está em jogo toda uma relação com o Ocidente, e há os Estados Unidos da América”, continuou Caracciolo.

A dimensão territorial e tradicional da fé

E se deve considerar acima de tudo que “hoje as Igrejas estabelecidas estão em crise, porque as instituições estão em crise. E a Igreja Católica também é uma instituição. Ninguém antes de Francisco, de fato, havia realmente renunciado àquela forma constantiniana produzida pelo Edito de Milão”.
O jornalista, a esse respeito, lembra que, no distante 1993, ao participar de um congresso com o cardeal Achille Silvestrini, este “fez um elogio à geografia, exatamente o contrário da expressão de Francisco, em que se diz que o tempo é superior ao espaço”.
Já a partir do nome, “o Papa Francisco é um oximoro, e o fato de que ninguém jamais se chamou assim não é por acaso”, continuou Caracciolo. E, “quando ele fala de Igreja pobre, ele o faz em sentido amplo e espiritual, e não banal do termo. Mas, ao se tornar Francisco, ele põe em questão seu próprio ofício. O fato de falar do pecado do clericalismo, deslegitimando a instituição da qual é o chefe, também é muito interessante, porque legitima também as críticas. E ouvir cardeais que criticam aberta e continuamente o papa é certamente algo novo e inesperado”.
Isso leva à conclusão de que “não se pode, contudo, imaginar que a Igreja como instituição pode sobreviver renunciando à dimensão do espaço, entendido como terra e território. Todo projeto futuro precisa de tradição: não se pode imaginar fingir que aquilo que se acumulou ao longo dos séculos não importa ou pouco importa”.

O fim do papado europeu e o catolicismo na cultura global

Mas, “no século XX, o catolicismo era a religião do mundo moderno, mas com antagonismo. Hoje, ao contrário, há anacronismo, mas que também pode ser profecia”, afirmou o presidente da Sociedade Dante Alighieri, Andrea Riccardi, durante seu discurso. “Francisco é o primeiro papa não europeu que marca o fim do papado europeu, isto é, feito de ação pastoral, pensamento e governo, e que é novamente posto em discussão em um tempo pós-ideológico. Durante dois séculos, a Igreja lutou contra a secularização que vinha da Revolução Francesa e que é descristianização. Hoje, porém, é preciso olhar para um mundo global. Onde está esse assim chamado ‘mundo pós-cristão’? Se formos para as periferias de São Paulo, de Buenos Aires ou da África, vemos uma poeirama de Igrejas cristãs. No máximo, é um mundo pós-católico.”
No entanto, no quadro do mundo global, “esse catolicismo consegue criar uma cultura?”, é a pergunta trazida à tona na conclusão por Riccardi, que afirmou que, em sua opinião, “as orientações políticas que emergem de muitos países, como nas Filipinas, nos países da Europa Oriental ou na Itália, não são as do papa”.
Ao retratar um cristianismo de povo, Riccardi afirmou por fim: “A Amoris laetitia é um elemento-chave, porque retrata uma dimensão de consciência, dando um passo além do Concílio Vaticano II”. E a pergunta é: “As estruturas da Igreja podem resistir diante dessa transformação?”.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Índios Assurini relatam à Justiça 40 anos de danos da Usina de Tucuruí

Meu comentário: No início dos anos 90 eu e minha esposa moramos nesta aldeia e pude ver de perto todo o estrago causado aos índios Assuriní do Trocará pela construção da hidrelétrica de Tucuruí. Um desastre!

Matéria original em TERRA

Distante das salas frias da Justiça, no próprio território em que vivem e que consideram sagrado, os índios Assurini relataram para o juiz federal Hugo Frazão, da subseção judiciária federal de Tucuruí, representantes de órgãos públicos, pesquisadores e estudantes, os cerca de 40 anos de danos gerados pela Usina de Tucuruí (PA) em suas vidas, desde o fim dos anos 1970, quando a hidrelétrica começou a ser instalada, sem consulta ou aviso prévio, nas águas do Rio Tocantins.
Quando encheu, a água levou tudo: motor, remédio, farinha, arroz, máquina. A Eletronorte tinha que pagar, estamos cansados de esperar , disse o cacique Cajuangawa Assurini. Pirá Assurini, filho do cacique, detalhou que, os que ali viviam, perderam as castanhas, as mandiocas, os milhos, as batatas, a máquina de arroz, a maior parte do seringal que ficava na beira do rio . Pirá continuou seu relato: Nunca conseguimos de volta o que tínhamos antes e até hoje, andando na beira do rio, continuam os impactos. A erosão provocada pela barragem levou cemitérios do nosso povo e continua comendo o nosso território .
A Eletronorte chegou a ser obrigada a fazer um pagamento mensal de R$ 150 mil pela demora em oferecer medidas de compensação, a partir de 2012, mas depois conseguiu reverter os valores em medidas emergenciais. O representante da empresa, o advogado Bernardo Fosco, disse que ela não se nega a dialogar com o povo Assurini, mas admitiu que as incertezas provocadas pela crise econômica e a possível privatização da estatal dificultam o avanço das propostas de compensação. Tucuruí é a terceira maior usina do país em termos de capacidade instalada, com mais de 8 mil megawatts de potência, perdendo para Itaipu e Belo Monte.
Entre os pedidos dos índios, estão a garantia de água e esgoto na comunidade e a reocupação territorial, bem como a garantia de ônibus para atendimento dessa população. De acordo com o MPF, o veículo foi adquirido em 2016, mas até agora não foi entregue à comunidade. Também não houve a garantia de assistência e outras medidas compensatórias.
Audiência na aldeia
Realizada na aldeia Trocará, a audiência foi solicitada pelo Ministério Público Federal (MPF), que acompanha há oito anos a ação que busca compensação e reparação pelos danos sofridos pela etnia Assurini com a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí. A procuradora da República Thais Ruiz, atualmente responsável pela ação judicial, disse que este ato, por si só, já é uma vitória da comunidade indígenae da sociedade brasileira, já que o respeito à pluralidade étnica é um dos objetivos da República consagrados na Constituição Federal .
Thais Ruiz ressaltou que, entre as várias etnias que sofreram graves impactos da usina construída no período da ditadura militar, os assurini estão entre os que não receberam nenhum tipo de compensação ou mitigação. Atualmente, há propostas da empresa e dos índios, mas nenhuma é consensual. De acordo com o juiz Hugo Frazão, será criada uma comissão interinstitucional, com a presença de índios, pesquisadores e representantes de várias instituições para analisar as propostas apresentadas pelos dois lados. A expectativa é que uma proposta seja apresentada no fim deste semestre.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Projeto Envira REDD+, no Acre, Brasil: certificadoras de carbono atribuem Nível Ouro a promessas vazias

Sede local do Projeto Envira Amazônia - Foto Lindomar Padilha

Por Jutta Kill, no Boletim WRM
O Projeto Envira Amazônia é um dos três empreendimentos de compensação de carbono florestal (REDD+) que a empresa estadunidense CarbonCo LLC está desenvolvendo no estado brasileiro do Acre. O projeto abrange quase 40.000 hectares de floresta amazônica e faz parte de uma enorme área de 200.000 hectares, dos quais a empresa JR Agropecuária e Empreendimentos EIRELI alega ser proprietária. Porém, essa propriedade é contestada. Famílias de seringueiros vivem naquelas terras há gerações, mas a maioria não conseguiu obter documentos legais que confirmem seus direitos fundiários. O projeto de REDD+ ameaça o futuro da comunidade porque impõe restrições ao futuro uso da terra e impede que as famílias voltem a usar terras agrícolas da comunidade não utilizadas na última década.
O principal dono da empresa brasileira envolvida no projeto de REDD+ Envira Amazônia é Duarte José do Couto Neto. Do Couto Neto está ligado a vários empreendimentos(1) e foi candidato pelo partido de extrema-direita Prona, no Acre, nos anos 1990. Ainda em setembro de 2017, manifestou apoio ao atual candidato da extrema-direita à presidência do Brasil e também à ditadura militar, afirmando sentir “saudades e muita do regime militar” (sic).(2)
Como na maior parte da Amazônia brasileira, a situação fundiária dentro da área do projeto é complicada e alvo de disputa, mas essa realidade é ignorada nos documentos do próprio projeto: a alegação de propriedade de inacreditáveis 200.000 hectares é aceita como verdade, e não se menciona qualquer disputa sobre a terra. Os consultores que deram o selo de certificação Clima, Comunidade e Biodiversidade (CCB) também não questionaram como uma pessoa – neste caso, Duarte José do Couto Neto – conseguiu adquirir legalmente uma extensão tão vasta de terras relativamente próxima à fronteira do Brasil com a Bolívia e o Peru.
Os seringueiros vêm usando essa área há gerações e portanto têm direitos legais sobre a terra que ocupam, embora muito poucas famílias possuam títulos de propriedade. Cerca de dez famílias de seringueiros que se tornaram agricultores possuem título de suas terras dentro dos quase 40.000 hectares que compõem o projeto de REDD+ Envira Amazônia. Além disso, cerca de 40 famílias vivem dentro da área circundante, mas fora dessa área de 40.000 ha do projeto REDD+. De acordo com seus documentos, o projeto de REDD+ afirma proteger todos os 200.000 hectares e sugere que essas comunidades situadas fora da área do projeto também são beneficiadas, mas não explica por que ou como elas seriam envolvidas ou afetadas.
Em 2015, o projeto de REDD+ Envira Amazônia foi certificado segundo o padrão Clima, Comunidade e Biodiversidade (CCB) pelo parceiro brasileiro da Rainforest Alliance, a Imaflora. As avaliações para outra certificação chamada Verified Carbon Standard (VCS – atualmente chamada Verra) foram realizadas pela Environmental Services Inc. (3). As certificadoras emitiram o primeiro lote de créditos de carbono do projeto em 2016, e um segundo lote em novembro de 2017. (4) O banco de dados do VCS mostra que, em 2016/2017, foram vendidos pelo menos 750.000 créditos de carbono do projeto de REDD+ Envira Amazônia. (5)
A comunidade não sabe que o projeto já está vendendo créditos de carbono
Quando o Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM) visitou famílias que moram dentro dos quase 40.000 hectares do local do projeto de REDD+ Envira Amazônia, em março de 2018, os membros da comunidade não sabiam que o projeto já havia sido “aprovado” e que já estava vendendo créditos de carbono. Os moradores explicaram que uma grande quantidade de estrangeiros havia visitado a área nos anos anteriores, mas poucos conversaram com eles e muitos pareciam não falar português. Eles haviam realizado estudos e uma pessoa visitava cada família individualmente para convencê-los a apoiar o projeto de carbono.
A maioria das famílias havia assinado um formulário sugerindo apoio ao projeto ou tinha sido fotografada ao receber um kit dental. Esse kit continha um pequeno tubo de pasta de dentes e uma escova e, juntamente com a oferta de uma consulta gratuita a um dentista, é o único benefício tangível que os membros da comunidade receberam até o momento.
Promessas (vazias) são a base para a emissão do certificado de Nível Ouro do CCB
Embora os moradores não tenham visto nenhum benefício tangível além do kit dental e uma consulta única ao dentista, muitas promessas foram feitas na apresentação do projeto às famílias. Os moradores confirmaram que as promessas correspondem àquelas mencionadas no documento do projeto preparado para a certificação do CCB: “JR Agropecuária e Empreendimentos EIRELI também irá implementar inúmeras atividades para ajudar as comunidades locais e atenuar as pressões de desmatamento, tais como: oferecendo cursos de formação de extensão agrícola; começando patrulhas dos potenciais locais de desmatamento nas fases iniciais do projeto; concessão de posse de terra para as comunidades locais; e criação de atividades económicas alternativas, incluindo a comercializar a coleção de plantas medicinais e açaí”. (6)
Em 2015/2016, a Imaflora concedeu um certificado CCB “Nível Ouro” ao projeto de REDD+ Envira Amazônia, com base nas promessas feitas à comunidade por quem implementa o projeto. No entanto, nenhuma dessas promessas foi cumprida. Como mencionado acima, os proprietários do projeto parecem nem ter informado a comunidade de que ele havia sido aprovado nas avaliações de certificação nem de que já estava vendendo créditos de carbono. A propaganda do projeto de REDD+ Envira Amazônia também destaca os benefícios que ele supostamente traria à comunidade. Por exemplo, um anúncio sobre o projeto no site carbonfund.org afirma que a comunidade está se beneficiando dele: “Os projetos sociais e as atividades para mitigar as pressões do desmatamento e beneficiar as comunidades locais incluem, entre outras coisas, cursos de extensão agrícola, patrulhamento em barco de áreas com potencial para desmatamento, melhoria das escolas locais e postos de saúde, e desenvolvimento de infraestrutura local para coletar, transportar e vender açaí, plantas medicinais e borracha de origem local”. (7) Foram incluídas fotografias de crianças em frente à escola comunitária (que não funciona há dois anos e está em mau estado) e uma foto de uma reunião da comunidade dentro do prédio da escola, sugerindo um projeto benéfico para a comunidade local.
Projeto de REDD+ Envira Amazônia: a realidade das famílias é de restrições, e não de benefícios
Enquanto os donos de projetos e organismos de certificação criam uma realidade virtual em que o projeto de REDD+ Envira Amazônia beneficia famílias dentro de sua área, a realidade concreta para a comunidade é semelhante àquela enfrentada pelas comunidades afetadas pelos outros dois projetos de REDD+ da CarbonCO LLC no Acre: Purus e Valparaiso/Russas. (8) Um latifundiário com título de propriedade questionável aproveita a situação de insegurança jurídica sobre a posse da terra e a localização isolada da comunidade e utiliza sua posição de poder sobre as famílias para impor restrições ao uso de terra que provavelmente acelerarão o êxodo rural.
O projeto de REDD+ Envira proíbe o uso da floresta por famílias de seringueiros fora dos 150 hectares atualmente disponíveis para cada uma das famílias que vivem dentro da área do projeto. Portanto, os moradores não podem usar novamente pedaços de terra recentemente abandonados que eram usados ​​por famílias de seringueiros até a década de 1990. Isso forçará os jovens que cresceram na área e desejam dar continuidade ao modo de vida de seus pais – como seringueiros e agricultores – a deixar a terra e migrar para as cidades, onde as oportunidades de emprego serão escassas. Em áreas próximas, grandes proprietários de terras continuam desmatando para criar gado, mas se nega às famílias seringueiras e agricultoras a terra usada há gerações para extração de borracha e pequena agricultura.
A realidade virtual de um projeto de REDD+ que proporciona benefícios de “Nível Ouro” à comunidade, criada pelos anúncios no site carbonfund.org e os relatórios de certificação, está em nítido contraste com a realidade das promessas vazias e das futuras restrições ao uso da terra que caracterizam o projeto de REDD+Envira Amazônia.
*Jutta Kill, Membro do secretariado internacional do WRM
(1) Os documentos de certificação incluem uma lista parcial de empresas e propriedades do Acre e do Mato Grosso, que aparentemente são monitoradas como parte da certificação do projeto de REDD+ (para evitar o chamado vazamento, isto é, que o proprietário simplesmente transfira gado a essas outras propriedades). Várias dessas propriedades listadas (por exemplo, a Seringal Canadá) fazem parte da grande propriedade de 200.000 hectares onde está o projeto de REDD+. No entanto, a lista parece estar incompleta e não inclui atividades no estado do Amazonas, mencionadas por vários moradores da região. Pelo menos duas empresas que indicam Couto Neto como seu sócio não constam na lista: Santa Cruz da Amazônia Empreendimentos Ltda e Start Up da Amazônia Projetos de Exploração Sustentável Ltda Me.
(2) Comentário de Duarte José do Couto Neto ao artigo “General do exército bate forte no STF”.
(3) Relatórios financeiros da organização sem fins lucrativos Carbonfund.org mostram um pagamento de US$ 136.802 em 2015 à Environmental Services Inc. Os relatórios não explicam se esse foi o custo da validação e da verificação do projeto de REDD+ Envira Amazônia ao padrão de carbono VCS. A CarbonCo LLC é uma subsidiária cuja propriedade total é da Carbonfund.org. O relatório anual da Fundação Carbonfund.org 2016 está disponível aqui; documentos apresentados para obter isenção de imposto de renda estão disponíveis aqui.
4) Veja aqui a longa lista de documentos de certificação de carbono e CCB do Verra/VCS.
(5) Link para o banco de dados do VCS/Verra.
(6) Documento do projeto Envira Amazônia preparado para a certificação do CCB, página 3. Versão em Portugûes.
(7) Anúncio da Carbonfund.org para o projeto de REDD+ Envira Amazônia.
(8) Para obter informações sobre os impactos desses projetos de REDD+ sobre as comunidades dentro de suas áreas, consulte a publicação do WRM“Considerações sobre um projeto privado de REDD no interior do Estado do Acre – Brasil”.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Papa Francisco recebe do Cimi o ‘Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil’

O presidente do Cimi e arcebispo de Porto Velho (RO), Dom Roque Paloschi, entregou o levantamento ao Sumo Pontífice na Cidade do Vaticano durante abertura da reunião preparatória ao Sínodo da Amazônia

POR ASCOM/CIMI COM INFORMAÇÕES DA ASCOM/REPAM(1) E VATICAN INSIDER(2)
O Papa Francisco recebeu na manhã desta quinta-feira, 12, o Relatório Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, publicado anualmente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). O presidente da entidade e arcebispo de Porto Velho (RO), Dom Roque Paloschi, entregou o levantamento ao Sumo Pontífice na Cidade do Vaticano durante abertura da reunião preparatória ao Sínodo da Amazônia, marcado para outubro de 2019.
A secretaria executiva do Cimi informa que Dom Roque transmitiu ao Bispo de Roma a preocupação da entidade com a atual conjuntura de retirada de direitos imposta pelo governo Michel Temer – caso das demarcações de terras submetidas ao Parecer 001 da Advocacia-Geral da União (AGU). Para a entidade, o desmonte da democracia em curso afeta, sobretudo, as populações mais vulneráveis e entre elas estão os povos indígenas.     
Pelo Cimi estavam presentes no diálogo com o Papa, ao lado de Dom Roque, o ex-presidente da entidade e bispo emérito do Xingu (PA), Dom Erwin Kräutler, e o assessor teológico, padre Paulo Suess. Os três fazem parte do Conselho Sinodal, composto por 18 membros – entre religiosos e leigos. Também atuam na Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), da qual o Cimi faz parte.
No Relatório, o Papa Francisco lerá que a violência contra os povos indígenas no Brasil levou a 118 assassinatos, em 2016. Ao todo, 106 indígenas se suicidaram neste mesmo ano; 735 crianças indígenas menores de 5 anos morreram por causas diversas, como desnutrição. Francisco já conhece os dados dos anos anteriores: em 2015, foram 137 assassinatos; 2014, 138. Já em 2013, quando foram contabilizados apenas os casos levantados pelo Cimi sem a ajuda dos dados estatais, foram 53.     
Esta é a terceira oportunidade em que representantes do Cimi anunciam e denunciam ao Papa Francisco a situação dos povos indígenas no Brasil. O primeiro encontro ocorreu em abril de 2014, com as presenças de Dom Erwin e padre Paulo Suess; o segundo em julho de 2017, já com Dom Roque presidindo o Cimi, e, por fim, este de hoje. Todos ocorreram no Vaticano.
Pré-Sínodo
Na Secretaria para o Sínodo estiveram reunidos na manhã desta quinta-feira, 12 de abril, os 18 membros do Conselho Sinodal e mais 13 especialistas em questões amazônicas, na abertura dos trabalhos do pré-Sínodo. O encontro de abertura foi presidido pelo Santo Padre, o Papa Francisco.
O cardeal Lorenzo Baldisseri, secretário do Sínodo, definiu a Amazônia como um jardim de imensas riquezas e recursos naturais, terra mãe de povos indígenas, com uma história própria e um rosto inconfundível. Terra ameaçada pela ambição sem limites e o afã de domínio dos poderosos.
Outro elemento, foram os novos caminhos que estão no título deste Sínodo que se realizará em outubro do ano que vem, enquanto a terra amazônica apresentada como um espaço sócio cultural que implica um duplo desafio: por um lado, um desafio para a Igreja, no sentido que a Amazônia é uma terra de missão, com características próprias que exigem caminhos novos e soluções apropriadas para inculturação no Evangelho; por outro lado, não menos importante, está o desafio apresentado pela problemática ecológica, que exige como resposta uma ecologia integral na linha com a Encíclica Laudato Si.
Os trabalhos do Conselho pré-sinodal para a Amazônia continuam até amanhã, 13, pela tarde. Os encontros contam sempre com a presença do Papa Francisco. Os documentos preparatórios, chamados lineamenta, baseiam-se no método ver, julgar e agir.
Padre Justino Rezende, da etnia Tuyuca, era o indígena presente: missionário salesiano há 34 anos e sacerdote há 24. Na sua apresentação ao Santo Padre e aos demais membros do pré-Sínodo, falou de sua alegria de ser um dos participantes, de estar pela primeira vez diante do Santo Padre e da presença da Igreja no meio de seu povo.
Histórico
Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Este é o tema escolhido pelo Papa Francisco para a assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica. Na verdade, os preparativos já começaram efetivamente durante a recente visita do Papa ao Peru, mas o Sínodo será realizado em outubro de 2019. Jorge Mario Bergoglio também nomeou os 18 membros do Conselho Pré-Sinodal, que colaborará na preparação do evento. Entre eles estão uma freira e um leigo, os vigários apostólicos de diversas comunidades amazônicas, o cardeal Claudio Hummes e o bispo missionário Erwin Kräutler.
O Papa, que havia anunciado a intenção de convocar um Sínodo especial sobre a Amazôniaaos bispos peruanos durante a visita ‘ad limina’, em maio do ano passado, fez o anúncio oficial durante o Angelus de 15 de outubro: “Acolhendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, além da voz de diversos pastores e fiéis de outras partes do mundo”, disse ele na ocasião aos fiéis, “decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, que terá lugar em Roma em outubro de 2019”.
“O objetivo principal desta convocatória – prosseguiu Francisco – é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dosindígenas, muitas vezes esquecida e sem a perspectiva de um futuro sereno, devido inclusive à crise da floresta amazônica, pulmão de capital importância para o nosso planeta. Que os novos santos intercedam por este evento eclesial, para que, no respeito à beleza da Criação, todos os povos da terra possam louvar a Deus, Senhor do universo, e, por Ele iluminados, trilhem caminhos de justiça e paz”.
No final do encontro com as populações indígenas, durante a visita a Puerto Maldonado, às portas da Amazônia peruana, o Papa anunciou, em janeiro deste ano: “A primeira reunião pré-sinodal acontecerá aqui, esta tarde”.
Sala de Imprensa do Vaticano anunciou o tema da assembleia de outubro de 2019, e também mencionou que o Papa nomeou, como sempre acontece antes de um Sínodo especial, “os membros do Conselho Pré-Sinodal que colaborará com a Secretaria Geral na preparação da mencionada Assembleia Especial”. Trata-se de 18 pessoas que representam substancialmente a geografia da Amazônia, a maior floresta do mundo que se estende por nove países da América LatinaBrasil, principalmente, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador,Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa.
Os nomes escolhidos pelo Papa são o cardeal brasileiro Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo (amigo de longa data de Jorge Mario Bergoglio, além de seu “vizinho de banco” durante o Conclave), presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica(REPAM) que se manifestou em várias ocasiões a favor da evangelização da Amazônia; o cardeal Peter Kodwo Appiah Turkson, prefeito do dicastério vaticano para o Serviço Integral de Desenvolvimento Humano; o “Ministro para os Assuntos Exteriores” da Santa Sé, Paul Richard Gallagher; o vigário apostólico de Puerto Maldonado, Peru, David Martínez de Aguirre Guiné; o novo arcebispo da Cidade do México, cardeal Carlos Aguiar Retes; o vice-presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica, o jesuíta Pedro Ricardo Barreto Jimeno, arcebispo peruano de Huancayo; o arcebispo paraguaio de Assunção, Edmundo Ponciano Valenzuela Mellid; o arcebispo brasileiro de Porto Velho, Roque Paloschi.
Também foram nomeados para fazer parte desta comissão o presidente da Conferência Episcopal da Argentina, Óscar Vicente Oiea; o bispo brasileiro do Mato Grosso, Neri José Tondello; o bispo de Paramaribo, Suriname, Karel Martinus Choennie; o ex-vigário apostólico de Puerto Ayacucho, Venezuela, José Ángel Divasson Cilveti; o vigário apostólico de Puyo, Equador, Rafael Cob García; o vigário apostólico de Pando, Bolívia, Eugenio Coter; o vigário apostólico de Puerto Leguízamo-Solano, Colômbia, Joaquín Humberto Pinzón Guiza; a irmã carmelita María Irene Lopes Dos Santos, delegada da Conferência Latino-Americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (Clar); Mauricio López, leigo, secretário executivo da Repam (Equador); dom Erwin Kräutler, missionário austríaco no Brasil, prelado emérito do Xingu.
No início do pontificado de FranciscoKräutler foi recebido pelo novo Pontífice argentino e, em conversas subsequentes com a imprensa austríaca, falou sobre os ‘viri probati’, homens ordenados de fé comprovada, em relação à dificuldade dos sacerdotes locais chegarem às comunidades tão distantes umas das outras e com o consequente sofrimento para os fiéis que não podem se comunicar durante longos períodos de tempo.
2-  A reportagem é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por Vatican Insider, em 08-03-2018. A tradução é de André Langer. Publicada no Brasil pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU)
Fonte: Por Ascom/Cimi com informações da Ascom/Repam(1) e Vatican Insider(2)

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Ativismo Social Financiado pelo Capitalismo Global Serve a Ordem Neoliberal Mundial

Eu digo: O texto de Michel Chossudovsky, que publico a seguir na íntegra, tem que nos servir para  (pelo menos) uma reflexão sobre os rumos para onde estão se dirigindo os movimentos sociais e especialmente as ONGs sempre ávidas por recursos.


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Ativismo Social Financiado pelo Capitalismo Global Serve a Ordem Neoliberal Mundial
Autor: Economista canadense Michel Chossudovsky, diretor de Centre for Research on Globalization (Canadá)
Fonte: Global Research (Canadá)
Tradução: Edu Montesanti 
No Forum Social Mundial de Salvador, na Bahia, milhares de pessoas foram às ruas "em nome da democracia": o movimento feminista, Vidas Negras Importam, Ambientalistas, Organizaçao de Povos Originários, o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), Organizações da Juventude, LGBT entre outros.
Como parte do 13º Fórum Social Mundial, eles marcharam sob o lema:
"Resistir É Criar, Resistir É Transformar" 
Minha pergunta:
Resistir a quem?
Os líderes e organizações do Forum Social Mundial (FSM) de Salvador, na Bahia, encontram-se diante de uma negação permanente; com certeza, agora eles devem reconhecer que o FSM - incluindo despesas de viagem - é financiado pelos mesmos interesses corporativos que são o objeto da ampla "RESISTÊNCIA" e das divergências, política e social. 
Quanto isso é conveniente. As corporações estão financiando dissidentes com vistas ao controle desses mesmos dissidentes, e os organizadores do FSM são cúmplices disso.
"O movimento anti-globalização é opositora de Wall Street e das gigantes petroleiras controladas por Rockefeller, etc. Contudo, as fundações e instituições filantrópicas de Ford, Rockefeller etc, generosamente financiarão redes progressistas anti-capitalistas tanto quanto ambientalistas (opositoras de Wall Street e o Grande Petróleo), etc. a fim de, finalmente, supervisionar e moldar suas várias atividades." (M. C, 2016)
O FSM é considerado transformador  dos movimentos progressistas, levando ao que é descrito como o surgimento da "Esquerda Mundial". 
O que é essa Esquerda Mundial, What is this Global Left, ela possui algum movimento de base? 
Ela é amplamente composta por "intelectuais de esquerda" e "organizações". Eles dizem combater o neoliberalismo.
Mas seu FSM é, em enorme medida, "fundado pelo neoliberalismo". 
As pessoas que participaram do FSM não sabiam que "RESISTIR" ao CAPITALISMO GLOBAL   é financiado pelo "CAPITALISMO GLOBAL".
Elas têm sido enganadas pelos organizadores do FSM. 
Em outras palavras, enquanto o lema do FSM Resistir para Transformar  significativo, na prática é redundante.
Reparações coloniais foram abordadas no FSM de 2018 em Salvador, no Brasil
O tema das reparações no FSM de 2018 em Salvador na Bahia, foi tratado na oficina Reparações ao Colonialismo, na the Assembleia Mundial de Resistência dos Povos, Movimentos e Territórios, e Ágora dos Futuros. Nestas atividades, participaram algumas centenas de pessoas, muitas das quais representantes de outras organizações. Foi abordada uma questão sobre a situação das reparações nos últimos anos, tentando identificar ações mais promissoras para o futuro
A quem seriam direcionadas essas demandas de reparação colonial?
As corporações e os governos ocidentais ("ex"-poderes coloniais) que, generosamente, financiaram o FSM tanto quanto as ONG participantes, estão frequentemente envolvidas em um processo de neocolonialismo social, destruição e pilhagem de recursos, para não mencionar as guerras.
Quando o FSM foi realizado em Mumbai em 2004, a comissão indiana corajosamente confrontou as organizadores do FSM e negaram o apoio da Ford Foundation (ligada à CIA). Isto, por si só, não modifica a relação do FSM com as corporações doadoras. Enquanto a Ford Foundation formalmente retirou-se, outras foundações reuniram-se com o Ministro de Desenvolvimento Estrangeiro de Tony Blair.
Tornando o Mundo Seguro para o Capitalismo
Sobre isso, a Ford Foundation reconhece abertamente seu papel no "financiamento da resistência e dos dissidentes":
"Tudo que a [Ford] Fundação fez poderia ser considerado "tornar o mundo seguro para o capitalismo", reduzindo as tensões sociais pela ajuda confortando os aflitos, fornecendo válvulas de segurança aos inconformados, e melhorando o funcionamento governamental (McGeorge Bundy, National Security Advisor to Presidents John F. Kennedy and Lyndon Johnson (1961-1966), President of the Ford Foundation, (1966-1979))
O movimento anti-guerra  esteve notoriamente ausente do FSM de Salvador em 2018.
Sob a bandeira "Contra a Militarização e as Guerras", o FSM de Salvador publicou uma declaração inócua:
Na condição de parlamentares e representantes das forças progressistas internacionais, estamos preocupados com o desperdício de imensos recursos na recente onda de militarização global, e com os crescentes gastos militares de diversos países em todo o mundo. Leia o texto completo, aqui.
SIM, GUERRAS SÃO CARAS. Enquanto "o desperdício de recursos" é importante, por que não mencionar os nomes "dos países" que estão ameaçando a paz mundial (i.e. EUA, Estados-membros da OTAN, Israel, Arábia Saudita), para não mencionar as milhões de pessoas que têm sido mortas como resultado das guerras lideradas pela OTAN.
NÃO HÁ "RESISTÊNCIA" na narrativa acima. O texto fracassa cuidadosamente em mencionar nomes dos países (EUA, OTAN), os quais lideram economias imperialistas de guerra de conquista, e destruição social.
É desnecessário dizer que as vítimas dessas guerras (i.e. Iraque, Síria, Iêmen etc) tanto quanto os interesses das corporações por trás dessas guerras, não são identificados.
RESISTIR não se aplica às guerras lideradas pelos EUA na Síria, Iraque, Ucrânia, Iêmen. Na verdade, parece que o tema das guerras lideradas pelos EUA e pela OTAN não é objeto de debate e discussão nas oficinas do FSM. 
O mosaico das oficinas do FSM
Os mecanismos da "dissensão manufaturada" exige um ambiente manipulador, um processo de persuasão e cooptação sutil de um pequeno número de indivíduos sem "organizações progressistas".  Muitos líderes dessas organizações têm, sob certo aspecto, traído suas raízes.
O que prevalece é um mosaico de oficinas. Os ativistas participantes do FSM têm sido mal orientados. Essas oficinas não ameaçam a ordem imperialista mundial. Elas constituem um ritual de dissensão e resistência.
O mosaico de oficinas separadas do FSM, a relativa ausência de sessões plenárias, a criação de divisões dentro e entre os movimentos sociais para nem mencionar a ausência de uma plataforma coesa e unificada, servem aos interesses das elites corporativas de Wall Street que, generosamente, financiam o FSM.
A agenda corporativa não declarada é "produzir dissidência". "Os limites da dissidência" são estabelecidos pelas fundações e governos que financiam esse multimilionário FSM.
O mosaico de oficinas é imposto pelos que financiam o FSM. O formato das oficinas não constitui ameaça ao capitalismo global. Muito pelo contrário.
O financiamento do FSM
Esta seção é amplamente baseada em um artigo anterior, de 2016, referente ao 12º FSM realizado em Montreal no mesmo ano. No entanto, os acordos do financiamento referentes ao FSM de Salvador, na Bahia, são amplamente semelhantes, dependendo das mesmas entidades doadoras.
O FSM é apoiado por um consórcio de fundações corporativas supervisionadas por Doadores Engajados para a Igualdade Global (Engaged Donors for Global Equity). Para mais detalhes, veja Michel Chossudovsky 2016.
Esta organização, anteriormente conhecida como Rede de Financiadores do Comércio e da Globalização (The Funders Network on Trade and GlobalizationFTNG), tem desempenhado um papel central no financiamento de sucessivas instalações do FSM. Desde o início, em 2001, possuía status de observador no Conselho Internacional do FSM.
Em 2013, o representante dos Irmãos Rockefeller (Rockefeller Brothers Fund), Tom Kruse, co-presidiu o comitê de programa da EDGE.
No Rockefeller Brothers Fund, Kruse era responsável pela "Governança Global" através do programa "Prática Democrática". As doações dos Rockefeller para ONGs são aprovadas pelo programa "Fortalecendo a Democracia na Governança Global" (Strengthening Democracy in Global Governance), muito semelhante ao apresentado pelo Departamento de Estado dos EUA.
Um representante da Open Society Initiative for Europe faz atualmente (2016) parte do Conselho de Administração da EDGE. O Wallace Global Fund também consta em seu Conselho de Administração. O Wallace Global Fund é especializado no fornecimento de apoio a ONGs "predominantes" e "meios alternativos", incluindo a Anistia Internacional, Democracy Now! (que apoia a candidatura de Hillary Clinton à Presidência dos EUA). Michel Chossudovsky 2016.
A representative of the Open Society Initiative for Europe currently (2016) sits on EDGE's Board of directors. The Wallace Global Fund is also on its Board of Directors. The Wallace Global Fund is specialized in providing support to "mainstream" NGOs and "alternative media", including Amnesty International, Democracy Now (which supports Hillary Clinton's candidacy for president of the US). Michel Chossudovsky 2016
Em um de seus principais documentos (2012), intitulado Financiadores da Aliança de Rede em Apoio à Organização de Base e Construção de Movimento (Funders Network Alliance In Support of Grassroots Organizing and Movement-Building, ligação não disponível), a EDGE reconheceu seu apoio aos movimentos sociais que desafiam o "fundamentalismo neoliberal de mercado", incluindo o Fórum Social Mundial fundado em 2001:
"Desde a revolta zapatista em Chiapas (1994), passando pela Batalha de Seattle (1999) até a criação do Fórum Social Mundial em Porto Alegre (2001), os anos TINA (There Is No Alternative,  em português 'Não há alternativa') de Reagan e Thatcher foram substituídos pela crescente convicção de que "outro mundo é possível". Contra-conferências, campanhas globais e fóruns sociais têm sido espaços cruciais para articular lutas locais, compartilhar experiências e análises, desenvolver conhecimento especializado, e construir formas concretas de solidariedade internacional entre movimentos progressistas por justiça econômica e ecológica".
Mas, ao mesmo tempo, há uma contradição óbvia nisso tudo: outro mundo não é possível quando a campanha contra o neoliberalismo é financiada por uma aliança de doadores corporativos firmemente comprometidos com o neoliberalismo, e com a agenda militar EUA-OTAN. 
 Os limites da dissidência social são assim determinados pela "estrutura de governança" do FSM, tacitamente acordada com as agências de financiamento no início de 2001. 
"Não há líderes"
O FSM não tem líderes. Todos os eventos são "auto-organizados". A estrutura do debate e do ativismo é parte de um "espaço aberto" (ver Francine Mestrum, The World Social Forum and its governance: a multi-headed monster, CADTM, 27 de abril 2013).
Esta estrutura compartimentada configura-se obstáculo ao desenvolvimento de um movimento de massa significativo e articulado.
Qual a melhor forma de controlar a dissensão popular contra o capitalismo global?
Basta garantir que seus líderes sejam facilmente cooptados, e que as bases não desenvolvam "formas de solidariedade internacional entre os movimentos progressistas" (para usar as próprias palavras de EDGE), minando signitivamente, desta maneira, os interesses do capital corporativo.
O mosaico de oficinas separadas do FSM, a relativa ausência de sessões plenárias, a criação de divisões dentro e entre os movimentos sociais para nem mencionar a ausência de uma plataforma coesa e unificada contra as elites corporativas de Wall Street, contra a falsa "Guerra Mundial ao Terror" patrocinada pelos EUA utilizada para justificar "intervenções humanitárias" dos EUA-OTAN (Afeganistão, Síria, Iraque, Iémen, Líbia, Ucrânia, etc).
O que finalmente prevalece, é um ritual de dissensão que não ameaça a Nova Ordem Mundial. Os que frequentam o FSM em suas bases são, muitas vezes, enganados pelos líderes. Os ativistas que não compartilham o consenso do FSM, são excluídos:
"Ao financiar e organizar a estrutura das políticas para muitas pessoas interessadas e dedicadas trabalhando no setor sem fins lucrativos, a classe dominante consegue cooptar a liderança das comunidades de base, sendo também capaz financiar, contabilizar e avaliar os componentes do trabalho, tão demorados e onerosos que o trabalho de justiça social torna-se virtualmente impossível sob estas condições "(Paul Kivel, You Call this Democracy, Who Benefits, Who Pays and Who Really Decides, 2004, p. 122)
"Outro mundo é possível" é, contudo, um conceito importante que caracteriza a luta dos movimentos populares contra o capitalismo global, bem como o compromisso de milhares de ativistas comprometidos atualmente participando do FSM de Montreal, em 2016. 
O ativismo está sendo manipulado: "Outro mundo é possível" não pode, no entanto, ser alcançado sob os auspícios do FSM que, desde o início, foi financiado pelo capitalismo global e organizado em estreita ligação com seus doadores corporativos e governamentais.
EDGE Board of Directors (2018)
O Conselho de Administração da Edge (The Edge Board of Directors) inclui representantes de grandes fundações e instituições de caridade corporativas, incluindo a Fundação Charles Leopold Mayer (Charles Leopold Mayer foundation), a Fundação Ford (Ford Foundation), o Serviço Mundial Judaico-Americano (American Jewish World Service), a Fundação da Sociedade Aberta (Open Society Foundation), entre outros.+